Escrita avulsa retirada da gaveta: diarística, textos esparsos, relíquias, memórias, antiguidades, velharias e outras inutilidades.

07
Abr 14

 

 

 

 

ESCREVER COM UM FÓSFORO?

{#emotions_dlg.meeting} 

Escrever com um fósforo: porquê?

Porque o fósforo incendeia o papel, e o papel arde, e nada fica? Só a cinza das palavras?

Talvez...

Mas porquê esta metáfora do "fósforo", a que sinto um especial apego inconsciente? Porquê esta associação espontânea, tão impositiva em mim, entre o fósforo e a escrita?

Não porque a escrita arda, pois não é este o caso, vociferando coisas escaldantes e muito menos incendiárias: são papéis velhos que aqui irei postando, escritos dispersos, memórias, relíquias, velharias esquecidas na gavera. 

O que eu vejo (ou julgo ver) no fósforo, não é a imagem do fogo ou do fósforo que lança fogo ao papel, é antes a imagem do fósforo apagado, do fósforo que ardeu e que perdeu a serventia. Algo de frágil e de efémero, que se parte e se deita fora, que escana e se desfaz à simples manipulação dos dedos. Do fósforo queimado que risca o papel com o resíduo inflamatório apagado, do fósforo gasto que esborrata letras desiguais, cinza de palavras às quais um simples sopro basta para as fazer voar.

Também não a imagem do fósforo vivo, ainda de cabeça rubra, por arder, em estado de potência inflamatória, mas cujo contacto inerte com o papel, ao contrário do contacto com a lixa, não fará saltar faúlhas, não o inflamará com o fogo das ideias: antes deixará o rasto de uma escrita apagada, cinza de fósforo ardido. Aqui, do fósforo apenas resta a ponta quebradiça, ou então o fósforo partido nos dedos, o fósforo que perdeu o seu poder inflamante mas deixou um rasto escrito de pó vermelho e de esquírolas inúteis - a sua alquimia desardente.

É pois a imagem do fósforo frio que alimenta esta escrita. Ou talvez mais a do fósforo riscado no vento: a volatilidade, a instabilidade, a inutilidade, afinal, do esforço posto em o acender - e reacender.

Mas porquê?

Talvez porque esta escrita casual e repentina brilha efemeramente para logo se apagar: como cada fósforo que é tirado da algibeira e, uma vez riscado, deflagrado, logo é jogado fora. E calcado aos pés. Quotidiano, frio e apagado – inútil.

 

Outubro 1990

© Pedro Barbosa 

 

publicado por Pedro Barbosa às 19:52

Abril 2014
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10
11
12

13
14
15
16
17
18
19

20
22
23
24
25
26

27
28
29
30


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

arquivos
mais sobre mim
pesquisar
 
blogs SAPO