Escrita avulsa retirada da gaveta: diarística, textos esparsos, relíquias, memórias, antiguidades, velharias e outras inutilidades.

10
Out 14

Escrever neste bloco-notas de noite, sem luz, sem papel, sem ideias e sem óculos: pergunto, como vejo tão bem com a vista tão cansada?

publicado por Pedro Barbosa às 07:44

29
Ago 14

Hoje, reflectindo neste diário póstumo sobre uma escrita não escrita, releio-me. E vejo que outrora dizia de modo encomiástico (mas tremendamente caricatural) que "a escrita era uma forma de vencer na nossa consciência reflexiva o incómodo de existir". Ah, ah, ah! Que quer isto dizer? Ainda hoje não sei, sei só que eram palavras tão profundas que não lhes vislumbro a sombra do fundo. Enfim, algo próprio de um adolescente crente nos impotentes poderes da "escrita", da "arte", da "política", ou de todas as outras coisas transformadoras de coisa nenhuma. Fosse essa coisa nenhuma "o absurdo de uma existência que nos resiste" (sic) - outra frase pró-fundo. Mais: se a literatura tem sentido é porque "fingimos inventar-lhe  um sentido". Qual sentido? Inúteis filosofias. Inúteis hermenêuticas. Espuma de palavras. Pois hoje só me apetecia ir mais longe do que foi Pessoa (como se isso fosse possível), deturpando o seu estafadíssimo verso: «O escritor é um fingidor, que finge tão fingidamente, que finge verdadeiramente a dor que deveras NÃO sente». E não se tente discutir o não-sentido disto tudo. Porque a Literatura tem uma só função prática indiscutível: dar emprego a professores de Português que não gostam de literatura. Tudo o mais é uma questão de códigos de barras nos supermercados da literatura actual... O marketing editorial bem o sabe. Um bluff de quem mercadeja sabonetes com letras ou detergentes de ideias. E mais não digo. Porque também não disse nada. Viva a Literatura!

 

© Pedro Barbosa

publicado por Pedro Barbosa às 23:40

23
Ago 14

Ainda sobre o enigma da escrita, lembro-me de em anos ingénuos ter respondido a um inquérito jornalístico assim: «Escrever - colocar  um  parêntese  efémero  no  grande silêncio do mundo». Palavras sonantes mas vazias. Pois a verdade é que valia o mesmo ter dito o contrário: «Escrever é colocar  um  parêntese  efémero  no  grande ruído do mundo». O ambíguo jogo da linguagem?

 

© Pedro Barbosa
        
publicado por Pedro Barbosa às 20:43

31
Jul 14

FÁBULA ZEN

      «Um pescador gozava o seu ripanço ao sol, na praia da sua ilha, e vem um estrangeiro que o interroga:

     - Porque é que não estás a trabalhar?

     - Para quê? - replica o pescador.

     - Para ganhares mais dinheiro.

     - Para quê? - torna a perguntar o pescador.

     - Ora, para comprares um barco maior...

     E de novo o pescador:

     - Para quê?

     - Para pescares mais peixes.

     - Para quê?

     - Compravas mais barcos e ganhavas ainda mais dinheiro.

     - Para quê?

     E o estrangeiro, já impaciente:

     - Para seres um homem rico.

     - Para quê? - continua o pescador.

     - Para não te ralares com coisa nenhuma e te estenderes aqui, regalado, a descansar...

     E o pescador, rindo-se:

     - Mas isso é o que eu já estou a fazer, sem passar por essa canseira toda!»

 

            Foi  por causa desta fábula que eu fui hoje ao advogado. Um dia explicarei.

publicado por Pedro Barbosa às 20:01

Reinicio o palimpsesto reiterando Brecht:

       «Não há noite tão longa que não atinja o dia.»

publicado por Pedro Barbosa às 16:54

07
Jul 14

 

O que é ESTAR HUMANO

 

Muitos anos se desgastaram os meus neurónios tentando perceber “o que é um SER HUMANO”. E quando mais achava que sabia menos entendia. Hoje, acordando pela manhã e olhando no azul do ar o voo das gaivotas entendi. Entendi o que não podia perceber: porque NÃO SE É UM SER HUMANO, ESTÁ-SE COMO HUMANO. A condição humana não é um modo de ser e sim um modo de estar. E a gaivota olhando do alto para mim na varanda deve ter pensado: «Olha, está ali um ser humano». Isto se a gaivota pensasse em termos humanos, claro. Porque a gaivota pensa em “gaivotês” (que é um termo humano). E a gaivota não é uma gaivota: a gaivota está como gaivota. Foi preciso meio século para eu entender afinal uma coisa tão óbvia? Contudo repara, a resposta está escrita ali no céu: nas nuvens claras que passam instáveis no vento incolor. Isso me deixou leve e feliz, sabendo que posso igualmente passar: deixar de estar para continuar a ser…

© Pedro Barbosa

7/7/2014

publicado por Pedro Barbosa às 12:58

02
Jul 14

«PORQUE ESCREVE?» 

Escrevo porque nunca gostei da primeira frase que disse. E escrevi segunda para corrigir a anterior, tentando apagar a primeira da memória dos outros.

Mas acabei por também não gostar da segunda frase que escrevi. E passei à terceira. E assim sucessivamente...

Foi deste modo que dei comigo a escrever livros atrás de livros, sempre diferentes, uns a seguir aos outros. Inutilmente.

 

 

                                                   «Au fond, voyez-vous, le monde est fait pour aboutir à un beau livre.»

                                                                                     Mallarmé

 

 

 © Pedro Barbosa

(Resposta a um inquérito no extinto "Comércio do Porto", há muitos anos atrás, 1983)

                                                                         

 

publicado por Pedro Barbosa às 08:37

27
Jun 14

  Hoje (actualmente!) muito tempo depois deste blogue, num bar à beira-mar, olho à minha frente um par de namorados: jantam romanticamente, partilham a mesma comida, erguem os dois copos à mesma bebida: penso, em termos humanos, nos rituais sociais do planeta Urântia (Sol III). Porquê este rito antiquíssimo de comer em comum antes de se fazer sexo na Terra? Porquê sempre um jantar partilhado antes de se ir para a cama de um motel? Entendo: para que os dois cupidos uniformizem as papilas gustativas e não sintam o mau hálito um do outro quando fizerem amor. Assim são as coisas neste planeta poluído: onde o sexo se esconde ao luar e algumas vezes se chama de amor... ;)  

P.S. - Gosto mais da hipócrita metáfora em que foder animalmente se metamorfoseia no chavão cansado do "dormir juntos": ao menos é sugerido que os sonhos de ambos serão partilhados no plano astral! Mesmo que os nossos belos cupidos passem a noite inteira em claro... Kkkkkkk :)

 

27 junho 2014

                                                                           © Pedro Barbosa

publicado por Pedro Barbosa às 23:02

07
Mai 14

 

 

«Momento»

 

Eis a paisagem: cenário de cordas enternecidas

Subindo noites no bolor interestelar.

Relâmpagos, néons, e por fim a tempestade solar

No céu sem sombra da memória incandescida.

 

Em cada aranha um filamento articular,

Em cada fio uma distância irresolvida.

Terás na vida a sempre teia a tricotar:

Serás insecto sem projecto e sem descida.

 

                                                                                   4 Nov. 1983

                                                                           © Pedro Barbosa

publicado por Pedro Barbosa às 22:32

21
Abr 14

 

 

Encontrei por acaso na internet mais um sentido (aliás bem claro) para o simbolismo de escrever com um “fósforo”. Por acaso!? Na verdade ele veio do escritor que mais iluminou a minha primeira juventude. De Érico Veríssimo: precisamente o autor do esquecido romance «Caminhos Cruzados». Caminhos que se cruzam de novo? Não foi preciso ir ao cartomante nem ao psicanalista… O fósforo como miniatura simbólica do facho imperial: a frágil luz dos pobres e dos deserdados da sorte.

 

 

"Desde que, adulto, comecei a escrever romances, tem-me animado até hoje a idéia de que o menos que o escritor pode fazer, numa época de atrocidades e injustiças como a nossa, é acender a sua lâmpada, fazer luz sobre a realidade de seu mundo, evitando que sobre ele caia a escuridão, propícia aos ladrões, aos assassinos e aos tiranos. Sim, segurar a lâmpada, a despeito da náusea e do horror. Se não tivermos uma lâmpada elétrica, acendamos o nosso toco de vela ou, em último caso, risquemos fósforos repetidamente, como um sinal de que não desertamos nosso posto." – Érico Veríssimo

publicado por Pedro Barbosa às 05:11

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