Escrita avulsa retirada da gaveta: diarística, textos esparsos, relíquias, memórias, antiguidades, velharias e outras inutilidades.

23
Ago 14

Ainda sobre o enigma da escrita, lembro-me de em anos ingénuos ter respondido a um inquérito jornalístico assim: «Escrever - colocar  um  parêntese  efémero  no  grande silêncio do mundo». Palavras sonantes mas vazias. Pois a verdade é que valia o mesmo ter dito o contrário: «Escrever é colocar  um  parêntese  efémero  no  grande ruído do mundo». O ambíguo jogo da linguagem?

 

© Pedro Barbosa
        
publicado por Pedro Barbosa às 20:43

31
Jul 14

FÁBULA ZEN

      «Um pescador gozava o seu ripanço ao sol, na praia da sua ilha, e vem um estrangeiro que o interroga:

     - Porque é que não estás a trabalhar?

     - Para quê? - replica o pescador.

     - Para ganhares mais dinheiro.

     - Para quê? - torna a perguntar o pescador.

     - Ora, para comprares um barco maior...

     E de novo o pescador:

     - Para quê?

     - Para pescares mais peixes.

     - Para quê?

     - Compravas mais barcos e ganhavas ainda mais dinheiro.

     - Para quê?

     E o estrangeiro, já impaciente:

     - Para seres um homem rico.

     - Para quê? - continua o pescador.

     - Para não te ralares com coisa nenhuma e te estenderes aqui, regalado, a descansar...

     E o pescador, rindo-se:

     - Mas isso é o que eu já estou a fazer, sem passar por essa canseira toda!»

 

            Foi  por causa desta fábula que eu fui hoje ao advogado. Um dia explicarei.

publicado por Pedro Barbosa às 20:01

Reinicio o palimpsesto reiterando Brecht:

       «Não há noite tão longa que não atinja o dia.»

publicado por Pedro Barbosa às 16:54

07
Jul 14

 

O que é ESTAR HUMANO

 

Muitos anos se desgastaram os meus neurónios tentando perceber “o que é um SER HUMANO”. E quando mais achava que sabia menos entendia. Hoje, acordando pela manhã e olhando no azul do ar o voo das gaivotas entendi. Entendi o que não podia perceber: porque NÃO SE É UM SER HUMANO, ESTÁ-SE COMO HUMANO. A condição humana não é um modo de ser e sim um modo de estar. E a gaivota olhando do alto para mim na varanda deve ter pensado: «Olha, está ali um ser humano». Isto se a gaivota pensasse em termos humanos, claro. Porque a gaivota pensa em “gaivotês” (que é um termo humano). E a gaivota não é uma gaivota: a gaivota está como gaivota. Foi preciso meio século para eu entender afinal uma coisa tão óbvia? Contudo repara, a resposta está escrita ali no céu: nas nuvens claras que passam instáveis no vento incolor. Isso me deixou leve e feliz, sabendo que posso igualmente passar: deixar de estar para continuar a ser…

© Pedro Barbosa

7/7/2014

publicado por Pedro Barbosa às 12:58

02
Jul 14

«PORQUE ESCREVE?» 

Escrevo porque nunca gostei da primeira frase que disse. E escrevi segunda para corrigir a anterior, tentando apagar a primeira da memória dos outros.

Mas acabei por também não gostar da segunda frase que escrevi. E passei à terceira. E assim sucessivamente...

Foi deste modo que dei comigo a escrever livros atrás de livros, sempre diferentes, uns a seguir aos outros. Inutilmente.

 

 

                                                   «Au fond, voyez-vous, le monde est fait pour aboutir à un beau livre.»

                                                                                     Mallarmé

 

 

 © Pedro Barbosa

(Resposta a um inquérito no extinto "Comércio do Porto", há muitos anos atrás, 1983)

                                                                         

 

publicado por Pedro Barbosa às 08:37

27
Jun 14

  Hoje (actualmente!) muito tempo depois deste blogue, num bar à beira-mar, olho à minha frente um par de namorados: jantam romanticamente, partilham a mesma comida, erguem os dois copos à mesma bebida: penso, em termos humanos, nos rituais sociais do planeta Urântia (Sol III). Porquê este rito antiquíssimo de comer em comum antes de se fazer sexo na Terra? Porquê sempre um jantar partilhado antes de se ir para a cama de um motel? Entendo: para que os dois cupidos uniformizem as papilas gustativas e não sintam o mau hálito um do outro quando fizerem amor. Assim são as coisas neste planeta poluído: onde o sexo se esconde ao luar e algumas vezes se chama de amor... ;)  

P.S. - Gosto mais da hipócrita metáfora em que foder animalmente se metamorfoseia no chavão cansado do "dormir juntos": ao menos é sugerido que os sonhos de ambos serão partilhados no plano astral! Mesmo que os nossos belos cupidos passem a noite inteira em claro... Kkkkkkk :)

 

27 junho 2014

                                                                           © Pedro Barbosa

publicado por Pedro Barbosa às 23:02

07
Mai 14

 

 

«Momento»

 

Eis a paisagem: cenário de cordas enternecidas

Subindo noites no bolor interestelar.

Relâmpagos, néons, e por fim a tempestade solar

No céu sem sombra da memória incandescida.

 

Em cada aranha um filamento articular,

Em cada fio uma distância irresolvida.

Terás na vida a sempre teia a tricotar:

Serás insecto sem projecto e sem descida.

 

                                                                                   4 Nov. 1983

                                                                           © Pedro Barbosa

publicado por Pedro Barbosa às 22:32

21
Abr 14

 

 

Encontrei por acaso na internet mais um sentido (aliás bem claro) para o simbolismo de escrever com um “fósforo”. Por acaso!? Na verdade ele veio do escritor que mais iluminou a minha primeira juventude. De Érico Veríssimo: precisamente o autor do esquecido romance «Caminhos Cruzados». Caminhos que se cruzam de novo? Não foi preciso ir ao cartomante nem ao psicanalista… O fósforo como miniatura simbólica do facho imperial: a frágil luz dos pobres e dos deserdados da sorte.

 

 

"Desde que, adulto, comecei a escrever romances, tem-me animado até hoje a idéia de que o menos que o escritor pode fazer, numa época de atrocidades e injustiças como a nossa, é acender a sua lâmpada, fazer luz sobre a realidade de seu mundo, evitando que sobre ele caia a escuridão, propícia aos ladrões, aos assassinos e aos tiranos. Sim, segurar a lâmpada, a despeito da náusea e do horror. Se não tivermos uma lâmpada elétrica, acendamos o nosso toco de vela ou, em último caso, risquemos fósforos repetidamente, como um sinal de que não desertamos nosso posto." – Érico Veríssimo

publicado por Pedro Barbosa às 05:11

07
Abr 14

 

 

 

 

 

 

 

 

Reflexão sobre a escrita diarística

 

            Num diário, a escrita está por dentro dos acontecimentos, na narração literária são os acontecimentos que estão por dentro da escrita.

            A escrita diarística está suspensa do tempo, depende dele, é ele que a domina, tal como é a lógica da vida que domina o engendramento dos factos e, por dentro destes, a escrita. A escrita diarística não controla os factos, antes voga ao sabor deles. Toda a expectativa é feita pelo tempo em suspenso, evoluindo de dia para dia, de acordo com uma lógica do real que os engrena e os engendra numa sequência inexoravelmente cronológica sem que o sujeito escrevente, também actor, os possa controlar a bel-prazer, pois está dependente do destino imposto pela máquina externa do real.

            Na escrita ficcional é a linguagem que cria os factos, permanecendo por fora deles: envolve-os, doseia-os, controla-os (eles não são “dados” consumados mas construíveis), toma-lhes o freio do tempo, enreda-os, inverte-os e fá-los derivar por onde os ardis da escrita os decide comandar; o suspense não é externo, é construído sabiamente pelo narrador mediante um doseamento técnico, mais do que propriamente pelo impoder de controlar o tempo e as engrenagens da lógica do real.

            É por este peso referencial que a escrita diarística se demarca claramente da escrita literária ou mesmo da escrita memorialista.

            E é este também o segredo e a sedução da tele-novela. É a lógica sincopada da telenovela que parece sustentar o seu sucesso público: o seu poder espantoso de suspender um país inteiro à mesma hora, dia após dia, ao longo dos meses, advém de ela mesma se ir construindo dia a dia, como um verdadeiro duplo da vida real (um duplo imaginário da vida real). Também aí o tempo é um factor indomável, tal como na vida, onde tudo pára à noite para “continuar no dia seguinte”. A expectativa é angustiante. Como será o nosso dia de amanhã? Como se irão nele continuar as coisas deixadas hoje interrompidas? O tempo, e não o discurso, eis o grande protagonista! O ritmo diarístico da telenovela – igual ao ritmo do quotidiano concreto - é por certo um dos factores determinantes do fascínio magnético que a novela televisiva soube redescobrir: a “garra” da vida.

            Aquilo que nos faz ansiar pelo dia seguinte e nos vai fazendo adiar a morte.

 

Nov. 1990

© Pedro Barbosa

 

publicado por Pedro Barbosa às 20:03

 

 

 

 

ESCREVER COM UM FÓSFORO?

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Escrever com um fósforo: porquê?

Porque o fósforo incendeia o papel, e o papel arde, e nada fica? Só a cinza das palavras?

Talvez...

Mas porquê esta metáfora do "fósforo", a que sinto um especial apego inconsciente? Porquê esta associação espontânea, tão impositiva em mim, entre o fósforo e a escrita?

Não porque a escrita arda, pois não é este o caso, vociferando coisas escaldantes e muito menos incendiárias: são papéis velhos que aqui irei postando, escritos dispersos, memórias, relíquias, velharias esquecidas na gavera. 

O que eu vejo (ou julgo ver) no fósforo, não é a imagem do fogo ou do fósforo que lança fogo ao papel, é antes a imagem do fósforo apagado, do fósforo que ardeu e que perdeu a serventia. Algo de frágil e de efémero, que se parte e se deita fora, que escana e se desfaz à simples manipulação dos dedos. Do fósforo queimado que risca o papel com o resíduo inflamatório apagado, do fósforo gasto que esborrata letras desiguais, cinza de palavras às quais um simples sopro basta para as fazer voar.

Também não a imagem do fósforo vivo, ainda de cabeça rubra, por arder, em estado de potência inflamatória, mas cujo contacto inerte com o papel, ao contrário do contacto com a lixa, não fará saltar faúlhas, não o inflamará com o fogo das ideias: antes deixará o rasto de uma escrita apagada, cinza de fósforo ardido. Aqui, do fósforo apenas resta a ponta quebradiça, ou então o fósforo partido nos dedos, o fósforo que perdeu o seu poder inflamante mas deixou um rasto escrito de pó vermelho e de esquírolas inúteis - a sua alquimia desardente.

É pois a imagem do fósforo frio que alimenta esta escrita. Ou talvez mais a do fósforo riscado no vento: a volatilidade, a instabilidade, a inutilidade, afinal, do esforço posto em o acender - e reacender.

Mas porquê?

Talvez porque esta escrita casual e repentina brilha efemeramente para logo se apagar: como cada fósforo que é tirado da algibeira e, uma vez riscado, deflagrado, logo é jogado fora. E calcado aos pés. Quotidiano, frio e apagado – inútil.

 

Outubro 1990

© Pedro Barbosa 

 

publicado por Pedro Barbosa às 19:52

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