Escrita avulsa retirada da gaveta: diarística, textos esparsos, relíquias, memórias, antiguidades, velharias e outras inutilidades.

31
Jul 14

FÁBULA ZEN

      «Um pescador gozava o seu ripanço ao sol, na praia da sua ilha, e vem um estrangeiro que o interroga:

     - Porque é que não estás a trabalhar?

     - Para quê? - replica o pescador.

     - Para ganhares mais dinheiro.

     - Para quê? - torna a perguntar o pescador.

     - Ora, para comprares um barco maior...

     E de novo o pescador:

     - Para quê?

     - Para pescares mais peixes.

     - Para quê?

     - Compravas mais barcos e ganhavas ainda mais dinheiro.

     - Para quê?

     E o estrangeiro, já impaciente:

     - Para seres um homem rico.

     - Para quê? - continua o pescador.

     - Para não te ralares com coisa nenhuma e te estenderes aqui, regalado, a descansar...

     E o pescador, rindo-se:

     - Mas isso é o que eu já estou a fazer, sem passar por essa canseira toda!»

 

            Foi  por causa desta fábula que eu fui hoje ao advogado. Um dia explicarei.

publicado por Pedro Barbosa às 20:01

Reinicio o palimpsesto reiterando Brecht:

       «Não há noite tão longa que não atinja o dia.»

publicado por Pedro Barbosa às 16:54

07
Jul 14

 

O que é ESTAR HUMANO

 

Muitos anos se desgastaram os meus neurónios tentando perceber “o que é um SER HUMANO”. E quando mais achava que sabia menos entendia. Hoje, acordando pela manhã e olhando no azul do ar o voo das gaivotas entendi. Entendi o que não podia perceber: porque NÃO SE É UM SER HUMANO, ESTÁ-SE COMO HUMANO. A condição humana não é um modo de ser e sim um modo de estar. E a gaivota olhando do alto para mim na varanda deve ter pensado: «Olha, está ali um ser humano». Isto se a gaivota pensasse em termos humanos, claro. Porque a gaivota pensa em “gaivotês” (que é um termo humano). E a gaivota não é uma gaivota: a gaivota está como gaivota. Foi preciso meio século para eu entender afinal uma coisa tão óbvia? Contudo repara, a resposta está escrita ali no céu: nas nuvens claras que passam instáveis no vento incolor. Isso me deixou leve e feliz, sabendo que posso igualmente passar: deixar de estar para continuar a ser…

© Pedro Barbosa

7/7/2014

publicado por Pedro Barbosa às 12:58

02
Jul 14

«PORQUE ESCREVE?» 

Escrevo porque nunca gostei da primeira frase que disse. E escrevi segunda para corrigir a anterior, tentando apagar a primeira da memória dos outros.

Mas acabei por também não gostar da segunda frase que escrevi. E passei à terceira. E assim sucessivamente...

Foi deste modo que dei comigo a escrever livros atrás de livros, sempre diferentes, uns a seguir aos outros. Inutilmente.

 

 

                                                   «Au fond, voyez-vous, le monde est fait pour aboutir à un beau livre.»

                                                                                     Mallarmé

 

 

 © Pedro Barbosa

(Resposta a um inquérito no extinto "Comércio do Porto", há muitos anos atrás, 1983)

                                                                         

 

publicado por Pedro Barbosa às 08:37

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